Speech Level Singing: Cantando no volume da fala

2009-06-22 20:05 Tags: , ,

Tive oportunidade de escutar um audiobook desse cara e aprendi algumas coisas bem bacanas sobre canto segundo a técnica de Speech Level Singing (SLS).

A idéia básica dessa técnica é que cantar não deve exigir mais esforço físico do que falar. Pra isso eles ensinam alguns princípios e exercícios bem lúdicos.

Aliás, “lúdico” define bem o SLS. Os exemplos e ilustrações que ele oferece ajudam a compensar a impossibilidade de se ver o que acontece com o aparelho fonador enquanto se canta.

Algumas idéias-chave que me inspiraram muito nesse método:

  • O gogó tem que ficar parado. Gogó subindo indica garganta fechando, o que pode ser verificado quando se engole saliva;
  • Já o movimento de bocejo faz a garganta abrir e o gogó descer, mas em excesso deixa a voz abobalhada. O legal é introduzir esse movimento como contrapeso à tendência que o gogó tem de subir junto com o tom das notas;
  • A ressonância natural do aparelho fonador amplifica a voz de uma maneira que não cansa. O desafio é que cada nota e vogal tem seu próprio ponto de ressonância. Por isso, além de achar as notas certas é necessário encontrar a ressonância ideal para cada uma;
  • A ressonância soa estridente e desagradável dentro da cabeça, como uma espécie de chiado. Mas soa bem ao microfone;
  • Bater os lábios, como se estivesse com frio, ajuda a encontrar os pontos de ressonância e projetar a voz. Com glissandos, esse exercício ajuda a suavizar as diferenças de timbre entre diferentes notas;
  • Notas agudas exigem menos ar do que notas graves. Elas devem ser emitidas com as cordas vocais “dobradas” ou “zipadas” e ressoar no topo da cabeça;
  • Um exercício pra ajudar a encontrar essa posição é cantar frases em “néi néi néi” como se estivesse imitando um bebê chorando ou uma patricinha no shopping (um primo meu ainda acrescentou “um travesti falando” à lista);
  • Para notas médio-agudas, mistura-se a voz de peito à voz de cabeça. Talvez esse seja o maior desafio do método, mas os resultados aparecem rápido: notas entre o F e o B vêm com muito mais facilidade e com um timbre convincentemente natural;
  • Treinar saltos grandes, como quintas justas e oitavas, ajudam a soltar a voz e melhorar a afinação;

O autor da técnica, Seth Riggs, diz que já até salvou as vozes de cantores que estavam prestes a se aposentar. A lista de alunos dele é uma coisa de cair o queixo.

As referências em português sobre SLS ainda são poucas, mas tenho visto cada vez mais gente falando a respeito.


Minha vida com cisto tireoglosso

2009-06-17 13:14 Tags: ,

Engraçado como algumas coisas incomodam a gente a vida toda e, depois que passam, a gente pensa como aguentou aquilo por tanto tempo.

Desde adolescente eu sentia um incômodo estranho na garganta, que me atrapalhava em várias coisas. Respirar, cantar, até mesmo beber água. Nem me importei em descobrir o que era. Sabia que não era normal, mas era como se fosse algo com o que eu tinha que me acostumar, meio que um fardo.

Daí, há coisa de uns três anos, eu comecei a tocar na noite com muita frequência. Shows de três a quatro horas, em locais muito frios, e sempre com muita cerveja e cigarro nos períodos de descanso. Minha imunidade caiu muito e eu comecei a ter constantes inflamações na garganta.

Males que vêm pro bem

Sem eu perceber, essas inflamações dispararam o aparecimento de um caroção no meu pescoço, que eu brincava dizendo que era o meu gogó másculo, que era causado por muita testosterona, etc. Por insistência da família, fui fazer um exame.

Resultado: eu tinha um Cisto do Duto Tireoglosso, doença congênita causada pela má formação de alguns tecidos na base da língua. O caroção era um tumor do cisto que, ainda que benigno, poderia me causar problemas no futuro.

O jeito? Faca. Marquei minha cirurgia pro período de tempo mais curto possível e torci pra ficar bom logo.

A cirurgia, segundo vários médicos me disseram, é um procedimento simples mas que tinha que ser bem feito pro problema não voltar. Um dos dados mais trash sobre ela é que era preciso fazer uma raspagem do osso ao redor do cisto pra não haver esse risco.

Graças a Deus, tudo correu muito bem.

A recuperação

Com o pescoço ainda costurado, sem poder falar nem comer muito, recebi um convite pra fazer um baile beneficente com a Garupa. Seria em pouco mais de um mês. Arrisquei e aceitei o desafio, engrossando a voz ainda fraca. Liguei prá turma e comecei a agendar ensaios.

Felizmente, foi tempo suficiente pra desinchar meu pescoço e limpar a garganta, à base de muita arnica e água. O baile foi maravilhoso e eu nunca me senti tão confortável no cargo de cantor. A dor e o incômodo que me atrapalhavam desde adolescente tinham ido embora.

Estou sem o cisto há cerca de um ano. E já não sei como vivi tanto tempo com ele.


2007-2008 Daniel Araujo
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