Regulando o tirante

2009-02-13 13:48

Com as variações climáticas ao longo do ano, é recomendável conferir a curva do braço a cada seis meses.

Como dito antes, a porca controla o contrapeso do braço às puxadas das cordas. Apertá-la, girando no sentido horário, aumenta a tensão do tirante e, consequentemente puxa a curva do braço para trás.

O ponto de equilíbrio ideal entre a força do tirante e a força das cordas não é uma ciência muito exata. Alguns, como o luthier americano Dan Erlewine, gostam de deixar o braço da guitarra perfeitamente reto quando ela está afinada. Outros preferem deixar o braço micrometricamente curvado.

A Folga (relief)

Em todo caso, parece ser um consenso que o braço não deve ter uma folga (relief) superior a 0.012 polegadas. Por “folga”, entenda-se o desvio máximo da curvatura do braço provocada pelas cordas. Esse desvio máximo costuma aparecer em torno da oitava casa do instrumento.

Vou demonstrar duas maneiras de medir a folga. As duas devem ser feitas com a guitarra afinada no tom em que ela vai ser tocada. Por isso, um afinador ajuda muito.

Medindo a folga pelos trastes

Esse método pressupõe que os trastes estão nivelados. Ao posicionar uma régua sobre eles, é comum perceber o 8o. traste um pouco mais alto ou baixo que os demais.

Mais simples ainda do que uma régua, podemos usar a corda Mi grave, esticada, para medir essa diferença. É só manter apertadas a primeira e a última casas simultaneamente, que ela se transforma em uma régua super precisa. Use um capo na primeira casa, para ficar com uma das mãos livres.

É provável que o fundo da corda esteja mais longe do 8o. traste do que dos demais. Essa distância deve diminuir na medida em que se aperta a porca do tirante. Para medi-la, pode-se usar um apalpa-folgas, ou um pedaço de uma corda de guitarra (ex. .009, .011…).

Já se o 8o traste (ou outro próximo) estiver mais alto que os outros, quer dizer que o tirante foi apertado demais. É necessário soltá-lo um pouco.

Régua perfurada

Um jeito mais preciso é medir a folga do braço usando uma Notched Straightedge, que é uma régua com furos onde se encaixam os trastes. A vantagem dela é que pode-se observar a curvatura do braço, sem depender da precisão do nivelamento dos trastes.

Eu fiz a minha própria adaptação da “Notched Straightedge” usando uma régua de pedreiro, uma furadeira e uma lima triangular.



O tirante - limpeza da porca

13:47

Recomendo fazer esse procedimento ao menos uma vez, pra deixar o tirante macio. Além disso, o tirante funciona diferentemente pra cada instrumento e este pode ser um bom momento pra entender o seu comportamento.

Primeiro, solta-se as cordas da guitarra.

Em seguida, solta-se a porca do tirante, girando-a em sentido anti-horário, sempre bem devagar e deixando a madeira “descansar” um pouco.

Um cotonete embebido em Varsol ou álcool isopropílico é ótimo pra tirar sujeira e ferrugem da rosca. Com o tempo, esse material poderia deixar a regulagem do tirante dura.

Em seguida, um cotonete seco para tirar o excesso. Cuidado para não deixar resíduos de algodão.

Com um palito de dentes, pode-se aplicar um pouco de vaselina pastosa na rosca da porca. Lembrando que esse é um post sobre guitarras, e não sobre zoofilia.

Aperta-se de volta, então, a porca do tirante, girando-a em sentido horário até ela começar a oferecer resistência. Esse é um sinal de que a porca alcançou a “parede” onde fica apoiada. É só a partir desse ponto que a porca começa a esticar o tirante. Mais uma volta completa deve deixar o braço razoavelmente firme pra aguentar uma afinação inicial das cordas.

Nesse momento, um afinador eletrônico será um grande aliado. Ao deixar as cordas na afinação que você usa em palco, o braço deve ficar com uma forma de “banana” bem evidente. Ou, pode ser que a volta inicial tenha deixado o braço com uma “barriguinha” encostando nas cordas. É hora de fazer a regulagem do tirante, pra buscar um equilíbrio entre a força do tirante e a força das cordas.


O tirante - introdução

2009-02-12 20:59

Antes do tirante ser inventado por Thaddeus McHugh, nos anos 20, os braços das guitarras tinham que ser muito grossos, e feitos com madeiras muito duras e pesadas. Caso contrário, a tensão das cordas tenderia a deixar o braço curvado, prejudicando a tocabilidade e a intonação do instrumento.

A longo prazo, essa curva poderia ficar permanente, o que praticamente inutilizaria a guitarra.

O tirante, tensor ou truss rod é um mecanismo simples e genial: na sua forma clássica, ele é uma barra curvada de ferro que, instalada dentro do braço, tensiona o braço no sentido contrário ao da tensão das cordas.

A simples presença de uma barra já poderia ser suficiente pra melhorar a rigidez do braço, mas McHugh foi além: inventou uma maneira de esticar o tirante usando apenas uma porca rosqueada em uma das pontas da barra, de maneira a deixar a resistência do braço regulável.

Quando a barra estica, o braço se curva pra trás. Essa força, devidamente regulada, se anula com a força das cordas, deixando o braço praticamente reto.

A invenção do tirante barateou o custo de fabricação das guitarras, já que os braços puderam ser feitos de madeiras mais leves e baratas. Também permitiu que eles passassem a ser mais finos e estáveis, o que abriu um novo mundo pros instrumentistas. Sem o tirante, por exemplo, talvez não existisse o shredding.


2007-2008 Daniel Araujo
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